O inverno traz mudanças que vão além do clima: dias mais curtos, menos luz solar e alterações na rotina podem impactar diretamente o bem-estar emocional. Para entender melhor como essas condições influenciam o humor e a saúde mental, o Bagé Agora conversou com a psicóloga clínica Dilce Helena Alves Aguzzi, que explica os efeitos dessa estação no organismo e no comportamento humano, além de orientar sobre formas de enfrentamento.
O frio, os dias mais curtos e a menor exposição ao sol podem influenciar o humor e a saúde mental das pessoas? De que forma?
Sim. O ser humano não está separado da natureza. Nosso organismo responde às mudanças de luminosidade, temperatura e ritmo das estações. Durante o inverno, a menor exposição à luz solar pode interferir em mecanismos biológicos relacionados ao sono, à disposição e ao humor. Além disso, os dias mais frios tendem a favorecer o isolamento, a redução das atividades ao ar livre e a diminuição dos encontros sociais, fatores que também podem impactar o bem-estar emocional.
Do ponto de vista psicológico, o inverno costuma convidar a uma maior introspecção. Em algumas pessoas isso pode ser vivido de forma saudável, como um período de recolhimento e reflexão. Em outras, especialmente quando já existe algum sofrimento emocional, esse movimento pode intensificar sentimentos de solidão, tristeza ou desânimo.
Existe relação entre o inverno e o aumento de sintomas de depressão, ansiedade ou desânimo? Quais são os sinais de alerta?
Sim, existe uma relação observada tanto na prática clínica quanto em pesquisas científicas. Algumas pessoas apresentam piora do humor durante os meses mais frios, enquanto outras percebem aumento da ansiedade, irritabilidade ou sensação de cansaço constante.
Os principais sinais de alerta incluem tristeza persistente, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, alterações importantes no sono, excesso de cansaço, dificuldade de concentração, isolamento social, sensação frequente de vazio, desesperança e mudanças significativas no apetite. Também merece atenção quando a pessoa passa a evitar sistematicamente o contato com outras pessoas ou percebe que está funcionando apenas no automático, sem entusiasmo pela vida cotidiana.
É importante lembrar que nem toda tristeza de inverno é depressão. O que diferencia uma oscilação passageira de um quadro que necessita de cuidado profissional é a intensidade, a duração e o prejuízo causado à vida da pessoa.
Quais grupos de pessoas são mais vulneráveis aos impactos emocionais causados pelo frio e pela falta de luz solar?
Pessoas que já possuem histórico de depressão, ansiedade ou outros transtornos emocionais costumam ser mais sensíveis a essas mudanças. Também podem ser mais vulneráveis os idosos, que frequentemente enfrentam redução da rede social e menor mobilidade, pessoas que vivem sozinhas, indivíduos em situação de luto ou que estejam atravessando momentos difíceis da vida.
Além disso, quem trabalha em ambientes fechados durante a maior parte do dia ou tem pouca exposição à luz natural pode sentir mais intensamente os efeitos da diminuição da luminosidade.
Também merecem atenção as pessoas que atravessam situações de vulnerabilidade social e econômica. Quando o inverno chega, a falta de aquecimento adequado, moradias pouco protegidas do frio ou mesmo a dificuldade de acesso a recursos básicos podem tornar essa estação ainda mais desafiadora. Nesses casos, o sofrimento não é apenas físico. A privação, a insegurança e a sensação de desamparo também podem impactar profundamente a saúde emocional.
No entanto, cada pessoa responde de maneira singular. Há quem se sinta energizado pelo inverno e quem experimente uma queda importante na disposição e no humor.
O que pode ser feito no dia a dia para preservar a saúde mental durante os períodos mais frios e com menos horas de sol?
Pequenas atitudes podem fazer grande diferença. Sempre que possível, é importante aproveitar os períodos de luz natural, abrir janelas, caminhar ao ar livre e manter algum contato com o sol. A prática regular de atividade física também é uma grande aliada da saúde mental.
Outro aspecto fundamental é não abandonar a convivência humana. Muitas vezes, o frio nos convida a ficar recolhidos, mas é importante preservar os vínculos afetivos, os momentos de conversa e as atividades que proporcionam sentido e prazer.
Também vale cuidar da qualidade do sono, manter uma alimentação equilibrada e reservar momentos para atividades que alimentem a alma: leitura, música, arte, espiritualidade, contato com a natureza ou qualquer experiência que favoreça a conexão consigo mesmo.
Costumo dizer que o inverno pode ser um tempo de recolhimento, mas não de abandono. Recolher-se é voltar-se para dentro de si. Abandonar-se é perder o contato consigo mesmo e com os outros. Quando conseguimos atravessar essa estação preservando os vínculos, os cuidados cotidianos e a escuta das próprias emoções, ela pode se tornar um período de crescimento e não apenas de endurecimento.
Por fim, o inverno também pode despertar movimentos de solidariedade. Participar de campanhas de arrecadação e distribuição de agasalhos, cobertores ou alimentos não beneficia apenas quem recebe. Muitas vezes, quem doa também experimenta uma sensação de conexão humana, pertencimento e propósito. Aquecer alguém em um período difícil é, de certa forma, aquecer também o próprio coração. Em tempos em que tantas pessoas enfrentam o frio do clima e, por vezes, o frio da solidão, os gestos de cuidado continuam sendo uma das formas mais bonitas de humanidade.