O frio intenso e o vento cortante que atravessam o Calçadão não afastam Airton Oliveira Nunes, de 57 anos, do seu ponto de trabalho. Mais conhecido como Maia, ele mantém viva uma profissão que, segundo ele próprio, está cada vez mais próxima de desaparecer.
O apelido Maia surgiu quando tinha apenas 12 anos. Apaixonado por futebol e goleiro nas peladas de bairro, Nunes decidiu adotar o nome em homenagem ao lendário goleiro alemão Sepp Maier, destaque do Bayern de Munique e da Seleção da Alemanha.
Foi também aos 12 anos que nasceu outra paixão que acabaria se transformando em sustento. Maia começou a trabalhar como engraxate e segue na atividade até hoje. Atualmente, restam apenas dois profissionais do ramo em Bagé: ele e um colega conhecido como Amendoim.
Ao longo da vida, Maia buscou outras formas de renda. Já vendeu laranjas, pastéis e jornais, entre outras atividades. Mesmo assim, nunca abandonou o ofício de engraxate.
“Essa é uma profissão que nunca mais vai voltar”, afirma.
Os gaúchos e as gurias
Grande parte da freguesia é formada por idosos e trabalhadores da zona rural. Segundo Maia, muitos gaúchos que atuam na campanha retornam à cidade nas sextas-feiras e aproveitam para lustrar as botas.
“São gaúchos que vêm do interior na sexta para sair com as gurias”, conta, entre risos.
As mulheres também fazem parte da clientela. Porém, segundo ele, costumam ser mais encabuladas. Muitas levam os sapatos em bolsas e retornam depois para buscá-los já engraxados.
O valor do fiado
Para manter os clientes, Maia utiliza uma prática cada vez mais rara: o fiado. Ele realiza o serviço e permite que o pagamento seja feito posteriormente. Embora reconheça os riscos, acredita que a estratégia ajuda a fidelizar a freguesia.
“O fiado pode prejudicar, mas também ajuda”, resume.
Histórias que ficam
Durante décadas de trabalho, Maia conquistou clientes não apenas pelo brilho dos sapatos, mas também pelo bom humor. Uma de suas frases mais conhecidas era um ditado usado para atrair fregueses. Hoje, ele prefere não repeti-lo por entender que a expressão pode ser interpretada como injúria racial.
Enquanto conversa com a reportagem, recebe a visita de um amigo de mais de 40 anos, Solismar Dutra Machado, de 60 anos. Para demonstrar a qualidade do trabalho, Maia logo convida o amigo a sentar e começa a lustrar seus sapatos.
Poucos minutos depois, o couro já reflete a luz, confirmando a fama construída ao longo de décadas no Calçadão.
Reivindicação antiga
Viúvo e pai de quatro filhos — três mulheres e um homem , Maia mantém uma luta que atravessa diferentes administrações municipais.
Há anos, ele reivindica a instalação de uma pequena estrutura coberta para trabalhar como engraxate. O pedido, segundo ele, já foi apresentado a diversos governos, mas nunca saiu do papel.
Para Maia, a falta de valorização da profissão explica o desinteresse pelo pleito.
“O engraxate vai morrer e não é valorizado”, lamenta.
Mesmo diante das dificuldades, ele segue firme na profissão, quase extinta.
Fotos: Márcia Sousa