A violência contra a mulher segue sendo um dos principais desafios sociais e institucionais no município, exigindo atuação contínua e integrada da rede de proteção. Em entrevista, a secretária de Políticas Públicas para a Mulher e Diversidade, Patrícia Alves, detalha o cenário atual dos atendimentos, os tipos de violência mais recorrentes e os avanços e dificuldades enfrentados no acolhimento às vítimas.
QUAIS SÃO OS TIPOS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER MAIS ATENDIDOS PELA SECRETARIA ATUALMENTE?
Os casos mais recorrentes atendidos pela Secretaria envolvem violência psicológica e violência física. A violência psicológica merece atenção especial porque, muitas vezes, é a primeira forma de agressão sofrida pelas mulheres e pode causar impactos profundos na autoestima, autonomia e saúde mental. Em muitos casos, ela antecede outras formas de violência, o que reforça a importância da informação, da prevenção e da busca por apoio desde os primeiros sinais.
HOUVE AUMENTO OU REDUÇÃO DOS CASOS DESDE QUE A SENHORA ASSUMIU A PASTA?
Observamos um aumento na procura pelos serviços da Secretaria. Esse movimento pode estar relacionado a diferentes fatores, entre eles a maior divulgação dos canais de atendimento, o fortalecimento da rede de proteção e a ampliação da confiança das mulheres nos serviços oferecidos. Cada vez mais mulheres têm buscado orientação, acolhimento e acompanhamento, o que demonstra a importância de mantermos uma rede acessível e preparada para atendê-las.
OS REGISTROS DE VIOLÊNCIA SÃO MAIS COMUNS NA ÁREA URBANA OU NA ZONA RURAL?
Os registros ocorrem em todo o município, tanto na área urbana quanto na zona rural. A violência contra a mulher é uma realidade que atravessa diferentes territórios e contextos sociais. Por isso, a Secretaria atua de forma integrada com a rede de proteção para garantir acolhimento, orientação e acompanhamento às mulheres, independentemente de onde residam.
EXISTE ALGUM PERFIL PREDOMINANTE DAS VÍTIMAS ATENDIDAS?
A violência contra a mulher pode atingir qualquer pessoa, independentemente da idade, escolaridade ou condição econômica. No entanto, uma parcela significativa das mulheres atendidas encontra-se em situação de vulnerabilidade social e econômica, o que muitas vezes dificulta o rompimento do ciclo da violência e reforça a necessidade de uma atuação articulada da rede de proteção.
A VIOLÊNCIA OCORRE MAIS EM ALGUMA FAIXA ETÁRIA ESPECÍFICA?
Atualmente não identificamos uma faixa etária predominante. Atendemos mulheres de diferentes idades, o que demonstra que a violência pode atingir mulheres em distintas fases da vida. Essa realidade reforça a necessidade de políticas públicas permanentes de prevenção, proteção e acolhimento.
OS CASOS ESTÃO CONCENTRADOS EM DETERMINADA CLASSE SOCIAL OU A VIOLÊNCIA ATINGE MULHERES DE TODAS AS CLASSES?
A violência doméstica e familiar atinge mulheres de todas as classes sociais. O que varia, muitas vezes, são as condições de acesso aos mecanismos de proteção e suporte. Por isso, é fundamental fortalecer políticas públicas que garantam proteção, acolhimento e autonomia para todas as mulheres.
O QUE ACONTECE QUANDO UMA MULHER PROCURA A SECRETARIA PELA PRIMEIRA VEZ?
O atendimento inicia com um acolhimento realizado pela equipe técnica, em um ambiente de escuta qualificada e respeito. A partir da compreensão da situação vivenciada pela mulher, são realizados os encaminhamentos necessários, que podem incluir atendimento psicológico, orientação jurídica, acompanhamento social e acesso aos demais serviços da rede de proteção.
QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS ENCAMINHAMENTOS REALIZADOS PELA EQUIPE?
Os encaminhamentos variam de acordo com a necessidade de cada caso. Entre os mais frequentes estão os realizados para os órgãos de segurança pública, Defensoria Pública, serviços de saúde, rede socioassistencial e demais instituições que integram a rede de proteção à mulher no município.
QUE TIPO DE APOIO PSICOLÓGICO, JURÍDICO E SOCIAL É OFERECIDO?
A Secretaria oferece acolhimento, acompanhamento psicológico, orientação jurídica e atendimento social. Também realiza encaminhamentos para programas, benefícios e serviços da rede pública, além do acompanhamento dos casos sempre que necessário, buscando garantir proteção e acesso aos direitos das mulheres atendidas.
COMO FUNCIONA O ACOLHIMENTO EM SITUAÇÕES DE RISCO IMINENTE?
Em situações de risco iminente, a prioridade é garantir a segurança da mulher. Nesses casos, ocorre a articulação imediata com os órgãos de segurança pública e demais serviços da rede de proteção. Quando necessário, são adotadas medidas de acolhimento e proteção adequadas à situação apresentada.
HÁ ACOMPANHAMENTO APÓS A DENÚNCIA?
Sim. O trabalho da Secretaria não se encerra com a denúncia. O acompanhamento é uma etapa fundamental do atendimento e busca assegurar que a mulher tenha acesso aos serviços necessários, fortalecendo sua proteção, autonomia e garantia de direitos.
QUAIS SÃO AS MAIORES DIFICULDADES ENFRENTADAS PELAS MULHERES PARA ROMPER O CICLO DA VIOLÊNCIA?
Entre as principais dificuldades estão a dependência financeira e emocional em relação ao agressor, além do medo, da insegurança e das preocupações com os filhos e com a própria sobrevivência. Romper o ciclo da violência é um processo complexo, que exige apoio familiar, social e institucional.
QUAIS INSTITUIÇÕES INTEGRAM A REDE DE PROTEÇÃO À MULHER EM BAGÉ?
A rede de proteção é composta pela Secretaria Municipal de Políticas Públicas para a Mulher e Diversidade, Centro de Referência da Mulher, Casa Abrigo, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Sala das Margaridas, Brigada Militar, Patrulha Maria da Penha, Guarda Municipal, serviços de saúde e assistência social, entre outros órgãos que atuam de forma articulada na proteção e garantia dos direitos das mulheres.
COMO É A ARTICULAÇÃO ENTRE SECRETARIA DA MULHER, DELEGACIA ESPECIALIZADA, BRIGADA MILITAR, MINISTÉRIO PÚBLICO E JUDICIÁRIO?
O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma atuação integrada e permanente. Mantemos diálogo e articulação constantes com os órgãos de segurança, justiça, saúde e assistência social para garantir que cada mulher receba o atendimento adequado em todas as etapas do processo de proteção e acompanhamento.
A ESTRUTURA EXISTENTE HOJE ATENDE À DEMANDA DO MUNICÍPIO?
Bagé conta com uma rede de proteção comprometida e atuante, formada por profissionais que trabalham diariamente na defesa dos direitos das mulheres. Como toda política pública, existe a necessidade de aperfeiçoamento e fortalecimento contínuo dos serviços, sempre buscando ampliar a capacidade de atendimento, prevenção e proteção.
QUAL É O MAIOR DESAFIO HOJE NO ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM BAGÉ: A DENÚNCIA, O ACOLHIMENTO OU A PROTEÇÃO DAS VÍTIMAS?
Todos esses aspectos são fundamentais, mas o maior desafio continua sendo garantir a proteção efetiva das mulheres após a denúncia. Isso exige uma atuação integrada da rede, acompanhamento contínuo e políticas públicas que assegurem segurança, autonomia e condições para que as mulheres possam reconstruir suas vidas longe da violência.
MUITAS MULHERES DEMORAM PARA DENUNCIAR. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS MOTIVOS OBSERVADOS PELA SECRETARIA?
Os principais motivos envolvem medo, dependência financeira, dependência emocional, preocupação com os filhos e insegurança em relação às mudanças que a denúncia pode gerar em suas vidas. Por isso, o acolhimento sem julgamentos e o fortalecimento da rede de proteção são tão importantes.
O QUE A POPULAÇÃO PODE FAZER AO PRESENCIAR OU SUSPEITAR DE UM CASO DE VIOLÊNCIA?
A violência contra a mulher é uma responsabilidade de toda a sociedade. Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente os canais de atendimento e segurança. Nos demais casos, é importante orientar a mulher a buscar apoio junto à rede de proteção e aos serviços especializados do município.
O QUE AINDA PRECISA AVANÇAR EM BAGÉ PARA QUE AS MULHERES SE SINTAM MAIS SEGURAS E PROTEGIDAS?
É fundamental seguir fortalecendo as políticas públicas para as mulheres, ampliando ações de prevenção, conscientização e proteção. Também é importante qualificar continuamente os serviços especializados e fortalecer a atuação integrada da rede. Nosso objetivo deve ser garantir que cada mulher saiba que não está sozinha e que encontrará acolhimento, proteção e apoio sempre que precisar.