Casos recentes de raiva em herbívoros no município de Piratini acenderam um alerta sanitário para produtores rurais da região da Campanha. A orientação é reforçar a vacinação dos rebanhos e comunicar às autoridades veterinárias qualquer suspeita da doença.
De acordo com o médico veterinário, fiscal estadual agropecuário e coordenador do Programa de Controle da Raiva dos Herbívoros da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, Wilson Hoffmeister Junior, a doença é causada por um vírus que pode atingir bovinos, equinos, ovinos e suínos, sendo transmitida principalmente pelo morcego hematófago — espécie que se alimenta exclusivamente de sangue.
Segundo ele, quando o morcego está contaminado, pode transmitir o vírus no momento em que morde o animal para se alimentar. “O vírus entra no organismo do herbívoro e se propaga pelo sistema nervoso até chegar ao cérebro, onde se multiplica e provoca a doença”, explica.
O período de incubação da raiva costuma variar entre 45 e 60 dias, podendo ser menor em animais jovens. Após esse período começam a aparecer os sintomas, que incluem falta de apetite, isolamento do rebanho, perda de equilíbrio e paralisia, principalmente nas patas traseiras.
“Muitas vezes o animal cai, tenta levantar algumas vezes e depois não consegue mais. Ele perde os movimentos do trem posterior e não consegue se alimentar ou beber água”, relata o veterinário.
Além dos prejuízos econômicos ao produtor, a doença também representa risco à saúde humana, já que a raiva é uma zoonose — ou seja, pode ser transmitida dos animais para as pessoas. A contaminação pode ocorrer principalmente pelo contato com saliva, sangue ou secreções de animais infectados, especialmente se houver ferimentos na pele.
Apesar de rara em humanos, a doença é extremamente grave. “Depois que os sintomas aparecem, a raiva tem praticamente 100% de letalidade”, alerta Hoffmeister.
Vacinação é principal forma de prevenção
Diante da circulação do vírus na região, a recomendação é que os produtores vacinem seus animais. Em propriedades onde os rebanhos nunca foram imunizados, o esquema inicial exige duas doses, com intervalo de três a quatro semanas entre elas. Cerca de 15 dias após a segunda aplicação, os animais já desenvolvem proteção contra o vírus.
A Secretaria da Agricultura também orienta os produtores a comunicarem à Inspetoria Veterinária qualquer local que possa servir de abrigo para morcegos hematófagos, conhecidos como refúgios.
Esses locais podem incluir cavernas, árvores ocadas, bueiros de linhas férreas e casas abandonadas, ambientes frequentemente utilizados pelos morcegos para descanso e reprodução.
Com essas informações, equipes especializadas realizam vistoria e, quando necessário, capturam os morcegos para reduzir a população que pode estar transmitindo a doença.
Trabalho regional de monitoramento
O médico veterinário destaca que municípios como Piratini e Pinheiro Machado já vêm sendo monitorados há algum tempo devido ao histórico de casos e à presença de muitos refúgios naturais para morcegos.
Além disso, equipes também atuam em municípios viBagéos, como Bagé, Candiota e Hulha Negra, já que os morcegos se deslocam por diferentes áreas e não respeitam limites territoriais.
“Não se trabalha apenas um município isoladamente. O controle é regional, porque o morcego pode se deslocar de um lugar para outro”, explica.
Atendimento não tem custo ao produtor
A Secretaria da Agricultura reforça que o atendimento das inspetorias veterinárias não gera custo ao produtor. Também não há interdição da propriedade ou bloqueio no trânsito de animais em caso de suspeita ou ocorrência da doença.
A vacinação contra a raiva não é obrigatória no Rio Grande do Sul, mas os técnicos alertam que, sem imunização, o produtor corre o risco de perder animais caso o vírus esteja circulando na região.
“Nosso alerta é para que os produtores vacinem seus rebanhos, informem possíveis refúgios de morcegos e comuniquem qualquer suspeita. Assim conseguimos acompanhar a evolução da doença e agir para combatê-la”, conclui Hoffmeister.