Geral

“Falar sobre suicídio não incentiva: pode abrir caminho para pedir ajuda”, alerta psicóloga





10/09/2026

Durante o Setembro Amarelo, o debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio ganha espaço, especialmente diante das preocupações relacionadas ao sofrimento emocional entre adolescentes e jovens. Para falar sobre o tema, o Bagé Agora entrevistou a psicóloga Dilce Helena Alves Aguzzi, que aborda os tabus em torno do suicídio, os sinais de alerta, os impactos das apostas on-line e os caminhos para buscar ajuda.


Por que o suicídio ainda é tratado como um tabu e quais são os riscos de não falar abertamente sobre o assunto?


O suicídio ainda é cercado por medo, vergonha, culpa e muitos mitos. Durante muito tempo predominou a ideia de que falar sobre o tema poderia incentivar o comportamento. O problema é que o silêncio também pode aumentar o isolamento de quem está sofrendo e dificultar que familiares, amigos e profissionais percebam que aquela pessoa precisa de ajuda. Precisamos falar, mas falar de maneira responsável. Não é necessário expor casos, detalhes ou procurar uma causa única. A prevenção passa por criar espaços nos quais alguém possa dizer “eu não estou bem” e encontrar escuta, acolhimento e encaminhamento adequado.


A região de Bagé apresenta preocupação com casos entre pessoas mais jovens. O que pode estar por trás desse cenário e quais sinais de alerta observar?


Eu teria cuidado em atribuir uma explicação específica a Bagé sem analisarmos dados epidemiológicos locais atualizados. Em adolescentes e jovens, situações graves de sofrimento geralmente resultam da combinação de diversos fatores, e não de uma única causa. Podemos observar mudanças importantes e persistentes no comportamento habitual: isolamento crescente, abandono de atividades antes significativas, queda acentuada no funcionamento escolar ou social, alterações marcantes de sono ou alimentação, desesperança, irritabilidade intensa, uso problemático de álcool ou outras substâncias e falas recorrentes que indiquem que a pessoa não consegue imaginar perspectivas para o futuro. Um sinal isolado não permite concluir nada. O que chama atenção é a intensidade, a persistência e, principalmente, a combinação de mudanças. Quando alguém próximo muda significativamente, vale perguntar como essa pessoa realmente está.


As apostas on-line, as bets, podem contribuir para sofrimento, ansiedade, endividamento ou desesperança?


Sim. É importante compreender que as bets não envolvem apenas dinheiro. Elas mobilizam mecanismos psicológicos muito potentes: expectativa, recompensa, frustração, sensação de controle e tentativa de recuperar aquilo que foi perdido. Pode surgir um ciclo perigoso: a pessoa perde, acredita que uma nova aposta poderá reparar a perda, aposta novamente e aumenta o prejuízo. Com isso podem aparecer ansiedade, conflitos familiares, ocultação das perdas, dificuldades financeiras, culpa, vergonha e comprometimento dos estudos, do trabalho e das relações. Em adolescentes e jovens existe uma preocupação adicional porque estamos falando de pessoas ainda em processo de amadurecimento emocional e de construção da relação com dinheiro, limites, frustração e impulsividade. Por isso, esse assunto merece ser tratado também como questão de saúde mental e prevenção.


Quais outros fatores aparecem relacionados ao sofrimento emocional de adolescentes e jovens?


Eu destacaria algo muito contemporâneo: muitos jovens estão permanentemente conectados e, paradoxalmente, profundamente solitários. Há comparação constante nas redes sociais, pressão por desempenho, necessidade de pertencimento, conflitos familiares e afetivos, bullying e cyberbullying, dificuldades acadêmicas, incertezas em relação ao futuro e exposição contínua a modelos aparentemente perfeitos de corpo, sucesso e felicidade. Mas também precisamos evitar transformar todo sofrimento adolescente em doença. Adolescência envolve conflitos, mudanças, frustrações e oscilações emocionais. A pergunta importante é: quanto isso está interferindo na vida dessa pessoa? Quando o sofrimento se torna intenso ou persistente e começa a comprometer vínculos, estudos, autocuidado, sono, convivência familiar ou capacidade de realizar atividades cotidianas, é importante procurar avaliação profissional. E diante de sinais relacionados à segurança da pessoa, não devemos esperar para ver se “é apenas uma fase”.


O que alguém em sofrimento intenso pode fazer e onde familiares ou amigos podem procurar ajuda antes de uma crise?


Quando falamos em prevenção do suicídio, precisamos deixar muito claro que existe uma rede de cuidado e que a família não precisa saber resolver a situação sozinha. O CVV, pelo telefone 188, oferece escuta emocional, gratuita e sigilosa. É um recurso importante para quem precisa conversar e encontrar acolhimento naquele momento, mas não substitui um atendimento de saúde quando existe uma situação de risco.
A rede de saúde mental, especialmente os CAPS, oferece acompanhamento especializado para pessoas em sofrimento psíquico. A Unidade Básica de Saúde, o postinho, também pode ser uma importante porta de entrada para avaliação e encaminhamento à rede de saúde mental. Quando percebemos que existe uma situação aguda, com preocupação concreta em relação à segurança daquela pessoa, entramos em outro nível de cuidado. Nesse momento, a prioridade deixa de ser somente conversar sobre o sofrimento e passa a ser a preservação da vida e da integridade psíquica. Nessas situações, a pessoa não deve permanecer sozinha. Um familiar ou adulto responsável deve acompanhá-la e buscar avaliação presencial imediata em uma UPA, pronto atendimento, serviço de emergência ou outro serviço de urgência disponível.
Podemos pensar, de maneira muito simples, em um protocolo de preservação da vida:
Levar a manifestação de sofrimento a sério.
Permanecer junto da pessoa e garantir a presença de um adulto responsável.
Reduzir o acesso a situações ou objetos que possam colocar sua segurança em risco, sem confrontos ou julgamentos.
Buscar avaliação profissional presencial quando houver preocupação com sua segurança.
Acionar a rede de urgência quando necessário.
Após o atendimento emergencial, garantir continuidade do cuidado na rede de saúde mental. A crise pode passar, mas o acompanhamento não deve terminar ali.
Em uma emergência, também pode ser acionado o SAMU pelo 192. E há algo fundamental: família, amigos e escola constituem uma rede de proteção, mas não substituem avaliação profissional. Quando existe dúvida sobre a gravidade da situação, é preferível buscar avaliação.
Prevenção significa construir uma rede em torno daquela pessoa antes que ela chegue ao limite. CVV, atenção básica, CAPS, UPA, pronto atendimento e SAMU cumprem funções diferentes, mas podem fazer parte de uma mesma rede de preservação da vida e do cuidado com a integridade psíquica.
Falar sobre sofrimento não cria sofrimento. Uma conversa responsável pode abrir justamente o caminho para que alguém consiga pedir ajuda.