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O último sebo de Bagé inicia um novo capítulo, unindo preservação e acesso à cultura





05/08/2026

Após mais de três décadas de história, o acervo do Cultura&Som, último sebo remanescente de Bagé, inicia uma nova fase sob a curadoria do livreiro Roberto Petterle. Com mais de 13 anos de atuação no mercado de livros, ele afirma que o desafio vai além da preservação do patrimônio: a proposta é ampliar o acesso à leitura por meio de preços acessíveis, ações itinerantes e novos espaços de circulação dos livros.


Segundo Petterle, o trabalho envolve a recuperação, catalogação e expansão do acervo, que já praticamente dobrou de tamanho nos últimos seis meses. A iniciativa também reúne uma rede de apoiadores formada por pessoas, instituições, universidades e poder público.
Uma herança cultural


Para o livreiro, assumir a curadoria do antigo Cultura&Som representa a continuidade de um legado construído ao longo de mais de 30 anos.
"Para mim, assumir a curadoria de um acervo tão importante e tradicional está sendo como receber uma herança e ter a oportunidade de dar continuidade a uma jornada de mais de três décadas de dedicação de uma família à cultura e ao conhecimento", afirma.


Petterle  comenta que sua trajetória sempre foi pautada pela valorização do livro como instrumento de transformação social e de democratização do conhecimento.


Preservar o passado olhando para o futuro


Entre os projetos, está a criação de um modelo que una preservação histórica e inovação. O trabalho é desenvolvido por meio de uma rede colaborativa formada por cerca de 600 pessoas, entre apoiadores individuais, empresas, instituições, universidades e órgãos públicos.


A proposta inclui doações, trocas, voluntariado, feiras literárias, oficinas e plataformas digitais para facilitar o acesso aos livros.


Na avaliação do livreiro, o livro ainda é um bem restrito para grande parte da população. "Vivemos em um país que elitizou o livro. Um assalariado precisa escolher: ou lê ou come", observa.


Loja física, plataforma virtual e livraria itinerante


O acervo passa por um amplo processo de avaliação, recuperação e catalogação, enquanto novas iniciativas começam a ser implantadas.
Atualmente, a atuação ocorre principalmente em feiras e eventos, levando os livros até o público em espaços públicos.


Segundo Petterle, a expectativa é que, em menos de seis meses, o projeto conte com uma loja física que reunirá livraria e sebo, além de lojas virtuais e um veículo para percorrer bairros, a zona rural e, futuramente, municípios da região.
"A ideia é inverter a lógica tradicional. É a livraria que vai até você", resume.


Memória e formação de leitores


Para Roberto Petterle, manter um sebo ativo é uma forma de preservar a memória coletiva e estimular a formação de novos leitores.
Ele cita a obra 1984, de George Orwell, para destacar a importância da preservação da história, lembrando que regimes autoritários tentam controlar a sociedade apagando registros do passado.


O livreiro também menciona uma frase atribuída a um antigo mercado de livros no Iraque: "Um leitor não rouba e um ladrão não lê".


Segundo ele, incentivar principalmente os jovens a terem acesso aos livros significa investir em uma sociedade menos violenta e mais consciente.


Relíquias do acervo


O acervo reúne milhares de itens, entre obras literárias e peças de valor histórico e colecionável.
Entre os destaques estão livros centenários, histórias em quadrinhos, mangás, almanaques, pôsteres, coleções de revistas, documentos históricos, LPs, EPs, fitas K7, VHS, selos, esculturas, antiguidades, bíblias, brinquedos e outros objetos raros.


Parte desse material ainda passa por restauração, enquanto outra já se encontra em perfeito estado de conservação.


Para Petterle, o objetivo é transformar esse patrimônio em um importante instrumento de fortalecimento cultural para Bagé e toda a região.